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quinta-feira, 11 de julho de 2013

As mil e uma mortes

Com a palavra...


Dando continuidade aos estudos iniciados há três anos, na última terça-feira (9) o jornal Correio da Bahia, divulgou os resultados das análises efetuadas à respeito dos homicídios na capital baiana e na Região Metropolitana de Salvador, a partir dos boletins divulgados pela SSP, tomando como base os 1000 primeiros homicídios ocorridos em 2013.
Embora o emprego do número mil como referência possa transmitir a sensação de algo concluído, totalmente encerrado, com certeza, esta nunca foi a intenção do órgão de comunicação social em questão, tanto assim que, neste ano, a 1.000ª morte veio acompanhada da 1.001ª.
Nessa lógica, por conta de um duplo assassinato ocorrido em Dias D`Ávila, enquanto a Nigéria enfrentava o Uruguai na Arena Fonte Nova e manifestantes enfrentavam a Polícia Militar, nos protestos que tomaram conta das ruas de todo o Brasil, o destino fatídico de um menor de 13 anos e uma mulher de identidade ignorada, se encarregou de nos mostrar, mais uma vez, que as histórias dos assassinatos ocorridos em Salvador e Região Metropolitana (RMS), estão muito longe de nos passar a sensação de algo concluído, totalmente encerrado.
Os documentos informam, as vozes evocam e os números falam. Assim, refletindo sobre o enigma que representa essa 1.001ª vitima, lembrei-me das Mil e Uma Noites e da paródia nefasta que pode ser escrita pelo nosso cotidiano de mil e uma mortes.
Infelizmente, como toda paródia, as nossas histórias de dias sempre iguais, também deformam, imitam e não transcrevem o enredo original. Assim, enquanto nas “Mil e Uma Noites” as histórias são organizadas de tal forma que cada uma delas é concluída com um elo que a liga à narrativa seguinte, envolvendo o leitor em uma teia sem fim até que o suspense que paira no ar se esgote, nas “Mil e Uma Mortes” há sempre uma solução de continuidade, embora, haja certa semelhança sobre quem será a próxima vítima.
Mesmo que uns não queiram, a verdade é que o nosso sistema de investigação é lento e ruim, pois, segundo Luiz Antônio Machado, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, no Brasil, a cada dez homicídios, apenas dois são esclarecidos.
Com índices tão baixos de elucidação criminal, não há como se afirmar do que decorre a maior parte dos homicídios registrados no Brasil e, particularmente, na Bahia, principalmente porque, entre nós, quando um homicídio não é esclarecido, de logo se pode colher a conclusão de que se o crime não decorre de uma relação interpessoal entre vítima e homicida, a culpa sempre, de forma simplista, é da demonizada droga, do narcotráfico, parecendo não ser importante saber quem mandou e quem puxou o gatilho.
E é exatamente isso que a cúpula da comunidade policial civil baiana, mais uma vez, acaba de fazer, confirmando o trágico enredo das nossas mil e uma mortes, através de um estudo divulgado na segunda-feira (8), afirmando que 69% dos casos de homicídios com motivação já identificada ocorridos em Salvador no primeiro trimestre do ano têm como autores e vítimas pessoas envolvidas com o tráfico de drogas.
Sabe-se que o crescimento vertiginoso no número de homicídios, no nosso país, é influenciado diretamente por dois fatores principais: a impunidade e a facilidade ao acesso a armas de fogo. Mas, não há dúvidas de que a falta de solução de crimes é a maior causa da impunidade e esta é a maior incentivadora da crescente e assustadora criminalidade em que estamos envoltos, principalmente quanto aos assassinatos.
Assim, é lógica a conclusão de que a solução dos homicídios é fator primordial para se entender o fenômeno da violência no país. No mundo das fábulas, Sherazade só escapou da morte porque conhecia o assassino, as circunstâncias em que o crime seria cometido e quem seria a próxima vítima. No mundo real, sem conhecer o assassino, as condições do crime e, em muitos casos, nem mesmo a identidade dos mortos, qualquer história que se queira traçar para explicar as mil e uma mortes, não nos livrarão da ameaça de sermos a próxima vítima.
Para finalizar, resta-nos refletir sobre o que as Mil e Uma Noites ensinaram ao mundo. Assim, já que a vida imita a arte, lembrei-me do filósofo francês Michel Foucault,  pois Sherazade,  nas fábulas árabes, e cada um  de nós, individualmente, na crua realidade baiana, vive “o esforço de noite após noite para conseguir manter a morte fora do ciclo da existência”.
E, com isso, chegamos ao problema, digamos, árabe: as mil e uma mortes sem solução admitem interpretações infinitamente variadas. E dependendo do especialista que trate do assunto, há variedades de perspectivas que tendem a privilegiar o seu enfoque particular. Seja como for, há uma multiplicidade de ângulos, que vão até o infinito, como nas Mil e Uma Noites.

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